quinta-feira, 29 de abril de 2010

A lição do AVC

anotações no bloco: 26 de março de 2010.

Lembro ter visto a minha mãe com dificuldade de levar uma garfada à boca. Achei estranho e comentei alguma coisa. Ela saiu em silêncio e foi para o quarto.


As notícias ruins caíram no meio da tarde triste. Ela estava sozinha e acreditava poder colaborar de alguma forma. Lembro que tentei convencê-la do contrário.

A sexta-feira de chuva trouxe novos rumos ao destino previsível. Chorando, ligou para algumas amigas anunciando o quanto havia se sensibilizado com a infelicidade dos outros. À noite a encontrei me esperando sentada, distante. Eu estava ainda nos problemas do trabalho. Não entendi os sinais que se apresentavam à minha frente.


Na manhã de sábado, ela pareceu meio tonta, frágil. Disse coisas quase que sem nexo, no meu modo de entender. Eu estava estressado pelas insignificâncias do trabalho. Não conseguia enxergar nada além da profunda depressão em que eu me afundava.


O domingo amanheceu misturado a um sentimento de culpa. Ela levantou-se para ver a missa da manhã. Os ramos acenavam a nova realidade. Fomos ao pronto-socorro. Eu estava entregue a sentimentos confusos de mim mesmo enquanto família. Compreendi tudo o que estava acontecendo. Minha mãe teve um derrame do lado direito. AVC.


De repente, o mundo virou-se ao contrário. Não retornei ao trabalho. Eu estava integrado aos problemas na família. A segunda e a terça-feira tornaram-se dias iguais. A minha mãe colocou-me no eixo. Pude enxergar o seu humor, apesar do lado direito adormecido. Talvez por finalmente eu a ter encontrado novamente e situado, finalmente, a sua figura no grau de relevância afetiva.


A cada minuto aprendo uma nova lição. A cada minuto, uma torcida de recuperação. Não tenho mais a dimensão do que seja a minha vida. Estou imerso num mundo de autodescoberta.

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